RELEMBRAR É RESISTIR - SUBVERSIVE MEMORIES
- Max Fernandes

- há 5 dias
- 5 min de leitura
Escrever sobre Subversive Memories é um tanto difícil para mim. Estive acompanhando o desenvolvimento desse jogo desde que Akira, o dev, anunciou seu projeto em uma postagem no fórum da comunidade de Discord do Nautilus. Eu sou suspeito para falar desse projeto por estar intrinsecamente ligado a ele, ao ponto que entrevistei o Akira no Festival Jogatório de 2024.
Por causa disso, fiquei muito feliz quando finalmente pude pôr as mãos no resultado final do projeto. Subversive Memories foi uma excelente tarde de sexta-feira santa, feriado da paixão. Aliás, se tem algo que esse jogo transpira é paixão, não só pelo survival horror, mas uma paixão pela história do Brasil e pelo que nos faz brasileiros.
Não é um exagero trazer esse tipo de afirmação: os ambientes que exploramos no jogo me transportavam diretamente para as memórias mais obscuras da minha infância. O prédio que exploramos não é, à primeira vista, muito diferente dos prédios governamentais na minha cidade, Santa Isabel - SP. O fórum, o INSS, a escola que eu estudava, a venda que comprávamos frutas, tudo é similar aos corredores da base militar que Renata está explorando.

É nítida a pesquisa que foi realizada para a produção de Subversive Memories. Os cartazes do período militar, de propaganda anticomunista ou nacionalista, as transmissões de rádio… Toda a experiência de Subversive Memories é um apanhado de documentos históricos que inclusive pouco constam em livros de história. O jogo não é um survival horror convencional, em que a narrativa parece toda estruturada ao redor dos arquivos que são encontrados pelo jogador no ambiente. Pelo contrário, Akira dá um jeito de contar mais do que os capítulos registrados do regime militar.
Um dos sistemas mais criativos de Subversive Memories é o da mediunidade. A ideia é simples: encontre uma vela, acenda-a próxima de uma sombra (elas estarão marcadas no mapa) e veja uma série de diálogos-chave da história de vida daquela pessoa antes de sua morte. Tem de tudo: uma pesquisadora que investigava o fenômeno fantástico ao redor da base, um padre da teologia da libertação e… Não vou revelar todos, mas cada um deles conta uma história típica da ditadura militar, de tantos Juvenais e Raimundos cujas cruzes não têm nomes, nem corpos e nem datas.
No entanto, as sombras que você pode trazer um acalento não são as únicas criaturas: também existem sombras hostis, maltratadas pelo pós-vida a ponto de se tornarem almas penadas. Contra elas, você só tem uma opção: usar o flash de sua lanterna para feri-las. O combate de Subversive Memories é simples e claramente serve somente para lhe dar algo a fazer entre as sequências de exploração, mas meu estilo de jogo em survival horror acaba por estragar ainda mais o horror dessas aventuras.

Veja, jogos de survival horror costumam ter como principal fonte de tensão a escassez de recursos, te forçando a usar suas armas com sabedoria. Não mate todos os monstros, apenas fuja deles e reaja somente quando não há outra opção. Entretanto, eu sempre joguei survival horror de maneira descabida, matando tudo que via pela frente, ainda mais quando já avancei o suficiente para desbloquear a maior parte do mapa. Quase sempre era recompensado com o ambiente se tornando despopulado e, embora minhas armas estejam sem nenhuma munição em algum momento, eu não teria mais a preocupação de fugir, e o jogo se torna um passeio no parque.
Com Subversive Memories não foi diferente. Isso não é uma falha de game design (até porque fiz isso com Resident Evil: Requiem no mês passado), é apenas minha forma de diversão com esses jogos: encará-los como grandes adventures com temática de horror. Os inimigos raramente são algo diferente de obstáculos para o jogo não se tornar somente uma sessão de arrumar coisas num lugar.
Se o combate do jogo é tão simples e serve para reforçar a atmosfera, o que falar dos outros aspectos dele? É nesse momento que preciso bater palmas para todo o conjunto de direção de arte e som. Os tais posters que elogiei não estão apenas lá em seu formato original e sem tratamento, eles foram todos “editados” para condizer com a pixel art. A estética low poly de console retrô alimenta bastante a ambientação oitentista. Eu não posso deixar de ressaltar também a escolha da arte de simplesmente apagar TODOS os rostos, que relaciona demais com o aspecto de memória, a temática central do jogo, aquilo que Renata busca durante a trama.

Subversive Memories é, como o nome diz, sobre memórias. Com o sistema de mediunidade, você explora as histórias esquecidas de vítimas da ditadura. Vamos lembrar quem eram essas pessoas, mas também vamos lembrar de como elas morreram. Akira não tem nenhum pudor em mostrar a barbaridade do regime militar, mas, se por um lado a linguagem é bruta, por outro ela dá nomes e personalidades para esses sujeitos. Somente um deles não possui essa humanização, e quando vocês encontrarem essa figura em seu jogo, saberão o porquê.
Ao demonstrar o caráter verdadeiro do regime militar, que muitos gostam de chamar de “ditabranda” por compararem com regimes mais terríveis na América Latina (como o chileno ou o argentino), Subversive Memories já teria feito o suficiente para que eu o visse como uma obra bem honesta e sensível sobre nosso trauma. Porém, o jogo vai além.
Uma crítica que discordo há muito sobre a arte nacional, mas que utilizarei para fundamentar essa conclusão, é a de que há um aspecto retratista na maneira com a qual pensamos as narrativas brasileiras. Pouco produzimos no gênero de fantasia, pouco experimentamos, grande parte do tempo estamos examinando eventos de nosso passado, seja o Brasil Império, a República Velha, a Era Vargas ou a Ditadura Militar.
Partindo dessa visão, embora os videogames não representem tanto o paradigma exposto, Subversive Memories seria mais uma dessas histórias que buscam “relembrar nosso passado inglório”. Contudo, Akira deixa bem claro seu posicionamento várias vezes durante o jogo, posicionamento esse que eu, como alguém politizado, só fiz aplaudir. Afinal, quando o autor me recordava logo na abertura que, ao viver “numa terra chamada Brasil, Deus não existe”, ele também me fazia perceber que “lembrar é resistir”.
Portanto, para um povo sem memória que decidiu explorar os traumas da ditadura somente quando uma de suas vítimas se tornou líder dessa nação com feridas abertas há quinhentos anos, manter essa memória viva é nosso dever como povo. Que venham mais memórias dos subversivos se passando em todos os lugares, para que possamos, de uma vez por todas, expurgar o terror que a ditadura militar implantou nesta terra, uma ferida que não foi curada até hoje.

Esse texto foi escrito por Max Fernandes e editado por Iara Vilela





Comentários