BARNYARD: COMO A NOSTALGIA ME REAPRESENTOU UM DOS JOGOS MAIS DIVERTIDOS QUE EXISTEM
- Iara Vilela

- 23 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de mar.
Não existia sensação melhor do que chegar em casa depois de um longo dia de “muito aprendizado” no Fundamental I, largar a mochila em qualquer canto e correr para a televisão. Nessa época eu só ligava o PlayStation 2 e mergulhava por duas horas em jogos baseados nos desenhos que eu acompanhava, até chegar a hora da lição de casa. Não sei se essa foi uma experiência universal, mas, para mim, a vida começava quando eu chegava da escola e ia direto para a frente da TV.
Os jogos que eu escolhia para passar o tempo quase sempre seguiam o hype do desenho que eu gostava no momento. Nas famosas promoções de “leve 10, pague 5”, eu aproveitava pra caramba. Foi assim que conheci games que talvez nunca tenham sido unanimidade da crítica ou protagonistas de longas análises no YouTube, mas que, para mim, viraram clássicos. E entre todos eles, existe uma joia rara que ocupa um lugar muito especial: Barnyard, ou, como conhecemos em território nacional, O Segredo dos Animais.
O curioso é que o jogo não segue necessariamente a história do filme. No longa, acompanhamos Otis, o boi despreocupado que aprende – de maneira dolorosa, diga-se de passagem – o peso da responsabilidade ao assumir a liderança da fazenda. É uma animação divertida, com momentos genuinamente bons. No jogo, porém, a experiência já segue uma perspectiva diferente, porque não controlamos Otis, mas um personagem novo, recém-chegado à fazenda. Temos nosso próprio espaço e participamos ativamente dos acontecimentos. A base da história se mantém, Otis, Ben e os demais personagens continuam por ali, mas agora somos agentes dentro daquele universo.
E, embora essa integração funcione muito bem, a verdadeira joia do jogo está em outro lugar: na variedade de minigames e na proposta de mundo aberto.

Eu me lembro com uma precisão quase assustadora de várias missões, especialmente das iniciais. Ainda tenho salvo o meu primeiro progresso no memory card, de um save criado há 15 anos. Inclusive, lembro o nome da minha personagem: Ikiji. Não faço ideia de onde surgiu esse nome, mas ele continua lá.
Os minigames que citei fazem parte da progressão da história. Para avançar, é preciso superar alguns desafios que variam entre ambientes controlados e áreas abertas da fazenda. Tem mini-golfe, corrida, fuga de carro (essa fase continua sendo absurda de boa), sinuca, sequência de comandos para dançar, minigame de culinária, entrega de bebidas e por aí vai. É praticamente uma coletânea de pequenos jogos dentro de um só.
Para uma criança apaixonada por mundo aberto (e que ainda ama), aquilo era a melhor coisa do mundo. O mapa tinha áreas bloqueadas que eram liberadas conforme avançávamos na história e honestamente, acredito que, se eu pegar o controle hoje, consigo atravessar a fazenda e arredores sem consultar o mapa. Existe até uma mecânica de “montaria” com bicicleta, usada para explorar o cenário com mais praticidade e velocidade. No mundo aberto, encontramos os pontos específicos dos minigames: expulsar coiotes da horta, coletar mel na floresta, participar da fuga policial de carro… sempre tinha algo para fazer.
O jogo também trabalha com a passagem de tempo. Os dias avançam, e as missões acontecem em turnos específicos, sendo de manhã ou à noite. Os personagens enviam mensagens indicando horário e local das atividades, o que cria aquela sensação urgente de “preciso resolver isso agora”. Para a minha versão infantil, aquilo era imersivo o suficiente para parecer um universo vivo.
Barnyard foi o terceiro jogo que zerei na vida, depois de dois outros ícones pessoais: Barbie Horse Adventures e Open Season (No Brasil é aquele desenho, O Bicho Vai Pegar). Não ter zerado antes foi por conta de vários motivos, mas o principal era a barreira do inglês. Antes da internet estar disponível na palma da mão, eu jogava com um dicionário no colo. Ainda assim, houve uma fase específica que me travou completamente. Tinha uma palavra que eu não encontrava no dicionário e não conseguia deduzir pelo contexto. Lembro da frustração de parar sempre na mesma missão e recomeçar o jogo do início várias vezes. Para quem ficou curioso: era uma fase em que eu precisava encontrar vazamentos de água usando um detector de metais. Até hoje não sei qual palavra me impediu de avançar, mas lembro perfeitamente dos momentos que tentei resolver o caso.
Durante muito tempo, fiquei com a dúvida clássica dos jogadores de longa data: será que o jogo era realmente bom ou só melhor na minha memória? Para tirar a prova, recentemente liguei meu PlayStation 2 novamente. Queria saber se era pura nostalgia.
E, sendo bem sincera, me surpreendi.
Eu não tenho critérios rigorosos para avaliar jogos: se eu me divirto, já é o suficiente. E eu gostei e me diverti muito. Percebi que melhorei em alguns minigames e piorei drasticamente em outros, especialmente quando vi meus próprios recordes antigos no painel de pontuação. Entendi diálogos que antes passavam despercebidos, aproveitei melhor as fases de fuga, controlei o carro com mais precisão. Em compensação, fui completamente humilhada pela minha versão de 15 anos atrás na sinuca e em um minigame que parece uma espécie de “pula-corda” na lama.

No fim das contas, essa revisita me ensinou algumas coisas: eu realmente tinha bom gosto para jogos, estou oficialmente ficando mais velha e, principalmente, não preciso estar obcecada por lançamentos gigantescos e produções milionárias para me divertir. Às vezes, tudo o que eu preciso é de uma fazenda com alguns coiotes para expulsar e a chance de pregar peças em carteiros.
E, sinceramente, isso continua sendo mais do que suficiente.
Esse texto foi escrito por Iara Vilela e editado por Max Fernandes





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