As vezes tudo que precisamos é um bom mistério - Blacksad: Under the Skin
- Max Fernandes

- há 2 dias
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Histórias de detetive são, há muito tempo, um gênero extremamente popular. Desde que Poe criou essa brincadeira com Assassinatos na Rua Morgue há quase duzentos anos, refinamos essa técnica com Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, misturamos com outros gêneros a partir de trabalhos como Nome da Rosa e tornamos um entretenimento popular, seja com a literatura pulp na Black Mask do início do século XX até os seriados policiais filhas de Law & Order.
Inspirado em tudo isso, surgiu, nos anos 2000, uma das minhas histórias em quadrinhos favoritas: Blacksad, HQ francesa dos espanhóis Juan Díaz Canales nos roteiros e Juanjo Guarnido no lápis. Misturando a estética do cinema noir com o furry, Blacksad conta a história de John Blacksad, um detetive que já viveu de tudo – um amor trágico, os horrores da guerra, o que há de pior no ser humano – e seus casos envolvem pessoas comuns desajustadas cometendo erros e tentando sobreviver na velha Nova York.
Parece o tipo de premissa que qualquer história noir carrega, mas o que Blacksad não exibe de originalidade nessa primeira vista acaba se revelando conforme as histórias se revelam no virar de páginas. A arte de Guarnido é espetacular, um deleite visual que transporta a maneira de contar histórias noir de maneira magistral tanto para as páginas de HQs como para a própria estética furry.

A personalidade desgostosa desses personagens típicos é diluída na personalidade expressa pelos animais antropomórficos, de maneira que Blacksad ser um gato preto diz mais sobre ele do que compará-lo a Philip Marlowe, herói clássico – e muito pouco heróico – da literatura pulp de detetive.
Blacksad é extremamente premiado e visto por muitos como uma das mais brilhantes histórias em quadrinho da Europa nesse século. É de se esperar então que sua única adaptação, Blacksad: Under the Skin, lançada em 2019, faça jus ao nome que representa no mundo dos jogos, certo? Então…
As avaliações negativas de Under the Skin por aí não são exageros, pois o jogo tem problemas seríssimos de performance, gráficos abaixo do esperado e não apresenta uma gameplay exatamente excelente até para os padrões de dramas interativos (eu juro que jogo mais do que isso, mas calha que preciso falar sobre um deles todo mês, se não esse site explode).
A principal reclamação das pessoas é acerca dos péssimos Quick-Time Events do jogo, especialmente se comparado a outros dramas interativos como os da própria Telltale, que na época do lançamento de Under the Skin, já havia refinado e saturado a fórmula, estando prestes a fechar as portas. Até a excelente trilha, que te transporta diretamente para um clube de jazz nos anos 50, é usada de maneira um tanto exagerada, com absolutamente todas as áreas do jogo sendo envolvidas pelo ritmo das baterias e saxofones, mesmo quando não é cômodo para o clima do ambiente, como um hospital ou um terraço.

Então, o que funciona em Under the Skin? Por que, em 2026, estou falando sobre um título que, embora tenha tido um certo impacto, parece ter se perdido nas areias do tempo? Embora existam alguns motivos logísticos (minha primeira análise do ano era pra ser Kejora, mas eu não consegui avançar muito nele por ser um jogo, com todo o respeito, de baixa qualidade), o principal é um sentimento de obrigação de conversar um pouco sobre o porquê de eu gostar tanto das peripécias do gato preto e como isso foi implementado num drama interativo, afinal, já sou fã de Blacksad tem dois anos, creio já estar na hora de ver o que faltava da “franquia”.
A primeira cena de Under the Skin envolve nosso protagonista usando sua máquina de escrever para quebrar a mandíbula de um rinoceronte que ficou um pouco ofendido com as investigações de Blacksad acerca de seu relacionamento extraconjugal. Nada estabelece melhor John Blacksad do que introduzi-lo numa situação cotidiana, porém perigosa, e vê-lo reagir a essas situações de maneira inusitada, afinal, esse gato frajola sabe sobreviver nas ruas como ninguém.
O que se segue nessa aventura é um caso extremamente dramático envolvendo um treinador de boxe encontrado pendurado pelo pescoço de maneira muito suspeita e sua filha, pouco interessada em qualquer resposta além de suicídio, indo atrás de John para encontrar o campeão de seu pai, Bobby Yale, que desapareceu na noite do ocorrido e precisa participar de uma luta em duas semanas que importa muito mais do que apenas o resultado esportivo.

Por muito tempo, vi jogos de detetive como um paradoxo. É muito difícil construir esse tipo de narrativa dentro de um videogame, que pressupõe a interatividade e a resolução de problemas, mas precisa limitar muito as ferramentas à disposição do jogador para que a história funcione, o que resulta numa dificuldade em encontrar exemplos de sucesso. Grim Fandango, Paradise Killer, talvez L.A. Noire, são jogos específicos e separados por grandes saltos de tempo.
Uma coisa que esses jogos todos têm em comum é que cada um resolve a “gamificação” de detetive de maneira diferente. Paradise Killer, o meu favorito, nos dá um laptop extremamente detalhado com todas as pistas e crimes que você está investigando ligados a seus respectivos suspeitos. Blacksad, por sua vez, propõe o “sistema de deduções”, um momento em que você acessa o pensamento do Blacksad e, através da combinação de afirmações curtas, consegue levar a deduções lógicas.
Cada dedução, por sua vez, será extremamente útil em algum momento da narrativa. Na abertura do jogo, que parecia, no primeiro momento, apenas um evento de “estabelecimento” de John Blacksad e do clima do jogo em si, você vai coletar o pensamento “o rinoceronte tem uma relação extraconjugal”. Eu via esse evento como só mais um, irrelevante para o caso, mas feito para que Blacksad tivesse algo na cabeça antes de iniciar as investigações, até que isso volta na metade do jogo em uma cena extremamente tensa que pode resultar na morte de personagens importantes.

Na realidade, muitos personagens podem morrer durante o jogo todo, o que revela um “sistema” que só descobri existir depois de terminar: Blacksad permite ao jogador uma espécie de run pacifista e genocida. Através de sugestões que você pode fazer a personagens ou decisões em momentos de tensão, é possível evitar o destino final de muitos dos personagens ou condená-los ao toque de Thanatos.
Sinceramente, como alguém que joga dramas interativos desde 2012, acredito que Blacksad é um dos melhores a propor esse nível de interatividade e o jogo reage muito bem a essas mudanças. Você não precisa que a história inteira seja mutável e se adapte às ações do jogador pois isso é impossível de ser feito sem esbarrar em “Quantiquismos” (ou Cageísmos para aqueles que jogaram as histórias do David Cage e sabem do que estou falando).
Dito isso, para uma história de detetive funcionar, o mistério dela deve ser interessante o suficiente. Eu não sou o melhor crítico de histórias de mistério, sou muito fraco para elas: minhas refeições são acompanhadas da pior série policial que minha mãe encontrou no Prime Video, e sempre fico até o fim do episódio, mesmo sem conhecer nada da história principal que avança ao longo do episódio.
Entretanto, mesmo que Blacksad não seja escrito por Canales, o roteiro foi supervisionado por ele. Under the Skin não é A Silent Hell ou Arctic Nation, histórias clássicas e marcantes do personagem. Na realidade, não tem nem como citar muitas dessas: Blacksad é um projeto feito “quando o autor quer”, o que resultou em apenas sete álbuns ao longo de mais de vinte anos de história. Sete álbuns e um jogo, no caso.

O mistério de Under the Skin pode não ser brilhante como os seus irmãos da mídia original, mas utiliza da mídia nova com louvores e me entrega tudo que eu espero de Blacksad: melodramas envolvendo trabalhadores sendo esmagados pelo capitalismo, um detetive estiloso com problemas acerca do seu passado e toda essa fantasia contracultural da época da Guerra Fria vista pela ótica de espanhóis talentosíssimos que não romantizam o passado, mas expõem suas feridas abertas de classe. Mesmo com seus tropeços, se Under the Skin carrega essas características, estarei com ele.
Por fim, durante minhas sessões, me peguei pensando sobre as inúmeras tentativas de adaptar HQs independentes e graphic novels para a mídia interativa. Minha memória me levou a jogos como Watchmen: The End is Nigh, Tartarugas Ninja da Platinum Games (adaptação da versão IDW das Tartarugas) e até o novo Hellboy: Web of Wyrd. Todos esses jogos têm características em comum: são jogos de ação sem o orçamento para realizar suas visões ao máximo.
Por conta disso, passei a valorizar Blacksad, além de seus méritos como jogo, como uma adaptação de uma HQ aclamada. Ao se afastar do gênero de ação – afinal, a história original não é sobre isso –, Blacksad é mais bem-sucedido que todos esses, especialmente por ser um jogo narrativo. Digo, obviamente eu gostaria de um jogo de ação de I Kill Giants, mas não lia HQs como essas pela ação. Se um drama interativo de Transmetropolitan ou Hellblazer fosse anunciado, seria um sonho virando realidade, porque eu quero histórias desses personagens muito mais do que quero socar pessoas os controlando.
Então, se eu tenho um drama interativo legal protagonizado por John Blacksad, que seja, estou feliz. Mais vale sair das HQs com uma boa história de detetive, que faça jus ao Doyle ou a Black Mask, do que um jogo de ação tão facilmente esquecido.










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