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ALAN WAKE 2: COMO UM ARTISTA SE RELACIONA COM SUA OBRA

  • Foto do escritor: Iara Vilela
    Iara Vilela
  • 12 de jan.
  • 4 min de leitura

Curioso pensar sobre Alan Wake 2 e a dificuldade de escrever e criatividade como o meu primeiro texto do ano. Talvez porque, entre todos os temas que o jogo apresenta, o que mais me atravessou não foi a sobreposição de narrativas, a não-aleatoriedade daquilo que parece aleatório, nem mesmo o caos de uma investigação criminal. O que realmente me prendeu foi a forma como Alan se relaciona com suas próprias obras, ou, mais precisamente, como ele tenta se relacionar com elas. Uma boa reflexão pra começar um novo ano, não é mesmo?


Então não, este texto não é uma análise profunda da história do jogo, nem um guia cheio de detalhes narrativos. O que proponho aqui é algo mais cru: uma reflexão sobre criatividade, bloqueio e a relação, muitas vezes dolorosa, entre o artista e aquilo que ele cria.


Para mim, Alan Wake II, é mais do que falar sobre mistério, terror ou narrativa fragmentada. O jogo fala sobre o famigerado bloqueio criativo, e sobre como quem depende da própria criatividade para trabalhar não pode se dar ao luxo de estar bloqueado.


O trabalho como escritor levou a uma relação diferente com Alan Wake e a escrita | Imagem: Internet.
O trabalho como escritor levou a uma relação diferente com Alan Wake e a escrita | Imagem: Internet.

A criatividade depende de inúmeros fatores, mas, acima de tudo, da forma como ela se relaciona com quem a utiliza. Para quem vive dela, como é o caso de Alan Wake, esse relacionamento pode facilmente se tornar abusivo. Um dos momentos que mais me fez refletir acontece em uma das fitas do Alan, já perto do final do jogo, quando ele entra em uma crise existencial por não conseguir escrever. O surto que se segue reflete com precisão quem ele é naquele ponto: sem arte, não existe Alan Wake.


Não chega a ser surpreendente que ele tenha fundido completamente sua identidade à figura do escritor. Tudo o que Alan faz, tudo o que ele é e tudo o que ele acredita ser se resume à escrita e ao sucesso que ela lhe trouxe. O peso da fama, nesse sentido, custou o que podemos chamar de todo o seu ser. Sem conseguir escrever, quem é Alan Wake? Essa pergunta, implícita e sufocante, é o que resume o colapso do personagem ao longo do jogo.


Nesse momento, que passa quase despercebido em meio a uma espiral insana de acontecimentos dentro do jogo, eu tive um relance de um pensamento muito íntimo da vida de quem trabalha com arte. Escrever, criar, desenhar, pensar algo novo: quando essas ações deixam de ser apenas expressão e passam a ser profissão, elas também passam a saturar.


Com o caos vem a insanidade, mas vem também a criatividade. Existe algo paradoxal (e igualmente complicado) nisso. Em uma reflexão justamente sobre o caos, algo que, por natureza, não conseguimos controlar, cheguei a uma conclusão estranhamente determinada. Talvez criar não seja sobre dominar esse caos, mas aprender a existir dentro dele.


Nesse momento do jogo, me vi mergulhada em uma reflexão sobre toda a trajetória da franquia de Alan Wake. Tudo começa, desde o primeiro jogo, com um bloqueio criativo. Alan chega à cidade em busca de descanso, mas o que deveria ser uma pausa se transforma em outra coisa: Alice, sua esposa, o conduz a uma espécie de terapia\tratamento alternativo com o objetivo de fazer Alan voltar a escrever, de arrancar a criatividade à força.


E foi impossível não me sentir pessoalmente ofendida, quase atacada, por essa ideia. Existe uma romantização muito perigosa do sofrimento criativo, como se o bloqueio fosse apenas um obstáculo a ser vencido com insistência, pressão ou dor. Como alguém que trabalha com escrita, ver uma pessoa sendo empurrada a produzir justamente no momento em que está bloqueada me atravessou de forma pessoal. Não só como espectadora, mas como parte desse ciclo que insiste em tratar o esgotamento como combustível e a criação como uma obrigação que não admite pausa.


Alan entra na narrativa de forma literal para conseguir entender e buscar inspiração | Imagem: Internet.
Alan entra na narrativa de forma literal para conseguir entender e buscar inspiração | Imagem: Internet.

Na história, sabemos que Alan passou dez anos tentando escrever o livro que poderia fazer ele voltar para a realidade. Ainda assim, o final do jogo é inconclusivo, ao menos no desfecho principal; não joguei o New Game+ para conhecer a versão alternativa. Pensar que um escritor consagrado, reconhecido e bem-sucedido também foi incapaz de concluir sua própria obra me traz um certo conforto. Talvez porque, como já disse, esse “fracasso” incompleto tenha me atingido de forma pessoal.


E, para tentar dar um fim a esse emaranhado aparentemente sem sentido de pensamentos, a mensagem que fica é justamente essa: existem momentos em que simplesmente não conseguimos fazer o nosso melhor. Nem o mais criativo, nem o mais inovador, nem aquilo que idealizamos. E tudo bem. Ainda assim, vale a pena tentar. Mesmo que não fique perfeito. Mesmo que pareça que não vai chegar a lugar algum. Trabalhar com criatividade não é fácil (nunca foi), mas o simples ato de tentar criar algo já é, por si só, mais do que suficiente.


 
 
 

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