PERSONA 5 ROYAL: MÁSCARAS, MEMÓRIAS E A DOR DE SE APAIXONAR POR UMA SOMBRA
- Iara Vilela

- 6 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de mar.

Persona 5 sempre despertou meu interesse, mas nunca aparecia o momento certo para jogar. Durante anos, ele foi apenas mais um dos 200 jogos na minha lista de desejos. Até que, em dezembro de 2025, tocou o alerta de promoção na PSN Store. Comprei Persona 5 Royal exatamente a tempo de aproveitar o recesso de final de ano do trabalho. Ainda bem que foi durante o recesso porque eu praticamente não dormi. Passei dias inteiros explorando Tokyo.
Entrei no jogo sabendo apenas duas coisas: era um JRPG por turnos e tinha sistema de dating simulator. Ou seja, exatamente o tipo de experiência que mais me atrai. Bastaram poucos dias para eu perceber que estava vivendo algo que entraria facilmente no meu Top 5 da vida. Já disse em outros textos, mas repito: meu critério de avaliação é emocional, e definitivamente não faz parte de um método científico nem de uma régua técnica universal. Se o jogo é bom pra mim, ele ganha espaço no meu coração.

Por conta disso, Persona 5 Royal me atravessou, inclusive de forma parecida com outro jogo de 2016 que ocupa o primeiríssimo lugar no meu coração: Final Fantasy XV. Muitas das coisas que me encantaram em Persona conversam diretamente com o Final Fantasy. A dinâmica do grupo, o senso de amizade, o humor leve em meio ao drama… e, claro, a semelhança quase gritante entre Prompto Argentum e Ryuji Sakamoto. É impossível olhar para um e não lembrar do outro.
As conexões me conquistaram rápido, mas não foi só isso. A história também dialogava muito com quem eu fui na minha adolescência. Em 2016, os personagens tinham 16 anos, eu tinha 15. As idades e os contextos batiam de forma quase desconcertante. Lembrei das vezes em que eu pegava o celular escondido no fundo da sala para responder ao grupo de amigos, provavelmente falando sobre Pokémon GO ou marcando de ficar sem fazer nada na casa de alguém. Ao mesmo tempo, Persona 5 não romantiza a adolescência. Ele aborda abuso de poder, manipulação, frustrações, expectativas esmagadoras. É um retrato mais cru do que aquela ideia vendida de que o ensino médio é apenas uma fase mágica e despreocupada, onde tudo é um mar de rosas.
O sistema do jogo tem suas camadas, mas com o auxílio de uma Persona inclusa no pacote de expansões, consegui atravessar muitos desafios sem travar demais. A vida cotidiana era exigente, feita de decisões importantíssimas: estudar ou sair com amigos? Trabalhar ou fortalecer vínculos? Ir à terapia ou investir em habilidades sociais? Já na vida como Phantom Thief, tudo é mais direto e estratégico. Descobrir que eu podia farmar dinheiro e experiência no Mementos em vez de trabalhar meio período foi quase um choque, fiquei até indignada com minha ingenuidade de tentar “ficar rica trabalhando”. Algo que, convenhamos, não funciona nem no jogo, nem fora dele.

Os Palaces são o ápice da experiência. Cada um tem identidade própria, mecânicas específicas e uma leitura simbólica do antagonista da vez. Sei que muitos vão discordar do meu pensamento, mas o Palace (SPOILER PERSONA 5 ROYAL) do Maruki, apesar de narrativamente forte, foi o que achei mais cansativo, principalmente na parte das misturas de cores. Em compensação, meu favorito foi o do Okumura, e eu sei que isso soa quase heresia para os fãs. A estética me lembrou Doctor Who e Star Wars, e a mecânica dos portais me deixou genuinamente empolgada. O confronto final, com o cronômetro pressionando, trouxe um senso de urgência que eu ainda não tinha sentido com tanta força no jogo.
Mas o ponto que realmente me fez refletir pra caramba sobre narrativa veio quando percebi a ligação emocional que Persona 5 Royal constrói com outro clássico: Final Fantasy VII.
A trajetória de Cloud Strife é extremamente impactante, por conta dele sofrer de um distúrbio de identidade que o leva a assumir, em partes, a vida e os traços de Zack Fair. Esse é um dos plots mais emblemáticos da história dos games. Quando entendemos o que se passa na mente de Cloud, tudo ganha outro peso.
E foi impossível não fazer o paralelo com uma certa personagem do Persona.

Durante a minha gameplay, decidi que o par romântico ideal para o Joker seria a Kasumi Yoshizawa. Ela é vibrante, determinada, cheia de energia. A cena da dança me ganhou completamente. Eu pensei: é ela. Até que a revelação veio: Kasumi era, na verdade, Sumire vivendo sob a identidade da irmã.
Naquele momento, senti algo muito próximo do que imagino que Aerith Gainsborough tenha sentido ao reencontrar, em Cloud, ecos de Zack. Em Final Fantasy VII: Crisis Core, vemos o vínculo leve e genuíno entre Zack e Aerith. Quando Cloud surge repetindo gestos, frases e até a forma do primeiro encontro, existe ali uma sobreposição dolorosa entre memória e presente.
Com Sumire, senti algo semelhante. Eu tinha me conectado à ideia de Kasumi, a “persona” construída para sobreviver à dor do luto. Engraçada, divertida, motivada a vencer. Quando a máscara caiu, precisei me despedir de alguém que, tecnicamente, nunca conheci de verdade. Ir aos poucos conversando e conhecendo a Sumire foi bonito, necessário e coerente, mas não foi igual. Existe algo profundamente triste em perceber que você se apegou a uma sombra.

E talvez seja justamente isso que Persona 5 Royal faz tão bem: ele fala, entre diversos assuntos, sobre máscaras. Sobre as personas que vestimos para sobreviver, para agradar, para suportar expectativas. Sobre o quanto é difícil abandonar uma versão idealizada de nós mesmos. E sobre como amadurecer envolve aceitar a própria identidade mesmo quando ela é imperfeita.
Esse texto foi escrito por Iara Vilela e editado por Max Fernandes





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